O divã, como muitos conhecem, é uma espécie de sofá, como na figura acima. A função inicial e concreta do divã é servir como mobília para se deitar. Mas por que usar o divã na Psiquiatria ou na Psicoterapia?
Bom, o uso do divã se tornou mais usual pela Psicanálise, sendo que ao longo dos anos outras linhas de psicoterapia também adotaram o divã para a sua prática. Claro que nem todos os terapeutas utilizam o divã e este não é indispensável para a psicoterapia.
De qualquer forma, quando o terapeuta o utiliza, ou melhor, o paciente, o terapeuta tradicionalmente se posiciona atrás do divã, sentado em cadeira ou poltrona, em posição em que o paciente não consegue vê-lo.
Freud descreveu essa escolha técnica já em seus primeiros escritos sobre a prática clínica, no início do século vinte, ao observar que manter contato visual constante durante horas de sessão era cansativo para o analista e podia inibir a livre associação de ideias do paciente.
Ao retirar o contato visual direto, o paciente ficaria mais livre para falar o que lhe viesse à mente, sem se preocupar com a reação do terapeuta a cada frase.
Ao “não ver” o terapeuta ou analista, o paciente pode ficar despreocupado com as expressões faciais, com a gesticulação e pode se concentrar em seus próprios pensamentos que vão se manifestar através da fala. O “não ver” o Terapeuta ainda acaba por permitir ainda mais que o terapeuta seja alvo de projeções, e assuma diferentes papéis, permitindo um acesso mais profundo ao inconsciente.
Ainda, o divã permite que o paciente fique relaxado, protegido, confortável, e ao mesmo tempo, por ter seu encosto elevado, estimula um certo grau de vigilância, diferentemente do que aconteceria se fosse uma cama, por exemplo. Esse estado de conforto e proteção dá ainda maior liberdade para o fluxo de pensamentos durante a sessão.
O divã é obrigatório na Psiquiatria e Psicoterapia atual?
Um ponto que muitos pacientes desconhecem, e que costuma gerar dúvida antes da primeira sessão, é que o uso do divã não é, por si só, indicador de qualidade ou profundidade do tratamento.
Diversas abordagens terapêuticas eficazes, como a Terapia Cognitivo-Comportamental, costumam ser conduzidas com paciente e terapeuta sentados em posição frontal, sem que isso represente um tratamento "mais superficial".
A escolha do formato depende da linha teórica do profissional e do que funciona melhor para cada paciente, não de uma hierarquia entre técnicas.
Alguns pacientes descrevem a sensação de estar deitado em um divã como “uma viagem” ao seu “interior”. Outros descrevem como uma sensação de Aconchego.
Mas há aqueles que não se adaptam ao divã, que acham desconfortável ou intimidador.
Alguns pacientes evitam o divã, outros já o solicitam na primeira sessão.
Há aqueles que alternam momentos no divã e momentos fora do divã.
Não existe regra.
O fato é que o divã, muitas vezes símbolo da psicanálise, ainda hoje tem uma série de funções na psiquiatria e psicoterapia.
*O conteúdo deste site tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual.
Sobre o autor: Dr. Vitor Cavenaghi é médico psiquiatra, especialista pela USP, com atuação em Depressão e Transtorno Bipolar. É doutorando em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP e membro da American Psychiatric Association (APA). Atende em consultório privado em São Paulo.
Referências
Freud S. Sobre o início do tratamento (novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I). 1913.
O divã de Freud no tempo atual: ressignificando o objeto-veículo de análise na clínica psicanalítica. Revista Psique, Juiz de Fora, v.2, n.3, p.110-126, jan./jun. 2017.
Perguntas frequentes (FAQ)
Preciso usar o divã para minha terapia funcionar?
Não. O uso do divã é uma escolha técnica associada principalmente à psicanálise, mas diversas abordagens eficazes de psicoterapia são conduzidas sentadas, em posição frontal.
O que determina a eficácia do tratamento é a condução clínica, não o mobiliário.
Por que alguns terapeutas ficam atrás do paciente?
Essa posição busca reduzir o contato visual constante, favorecendo que o paciente fale livremente sem se preocupar com as reações do terapeuta a cada momento.
É uma técnica associada à livre associação de ideias, característica da psicanálise.
O divã é usado em psiquiatria também?
Pode ser, especialmente quando o psiquiatra também conduz psicoterapia com orientação psicanalítica. No entanto, grande parte do atendimento psiquiátrico, voltado à avaliação clínica e ao manejo medicamentoso, não envolve o uso do divã.
Quando procurar ajuda profissional
Se você se identificou com alguns dos sintomas ou dificuldades descritos neste texto, vale a pena procurar uma avaliação especializada de saúde mental.
A avaliação psiquiátrica permite compreender melhor o quadro e discutir possíveis estratégias de tratamento.
Dr. Vitor Cavenaghi atende pacientes em consultório privado em São Paulo.
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