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Transtorno Bipolar e TDAH: Como Diferenciar e Tratar

Rafael, 28 anos, sempre foi descrito como "avoado".

Na escola perdia material, esquecia prazos e se metia em confusão por agir sem pensar. Já adulto, passou a viver períodos de duas ou três semanas dormindo pouco, cheio de energia e de ideias, gastando mais do que devia, seguidos de meses de desânimo profundo.

Ele chega ao consultório com uma pergunta que muitos fazem: tenho TDAH, tenho bipolaridade ou os dois?

Esse é um dos diagnósticos diferenciais mais frequentes e mais delicados da psiquiatria do adulto.

Se você se reconhece na Desatenção e na Impulsividade, mas também percebe fases de Humor muito diferentes do seu normal, este texto ajuda a entender o que separa os dois quadros, por que eles se confundem e como o tratamento é conduzido quando coexistem.

O Transtorno Bipolar e o TDAH podem coexistir?

Sim.

Estudos mostram que cerca de 1 em cada 6 adultos com transtorno bipolar também tem TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e cerca de 1 em 13 adultos com TDAH tem bipolaridade.

Esses são números significativos.

Os dois diagnósticos podem coexistir, mas se confundem com frequência, pois ambos causam Desatenção, Impulsividade e Inquietação.

A diferença está no padrão ao longo do tempo.

Uma metanálise de 71 estudos, com mais de 640 mil participantes, estimou a presença de TDAH em 17% dos adultos com Transtorno Bipolar e de Transtorno Bipolar em cerca de 8% dos adultos com TDAH.

Em outras palavras, a associação é bem maior do que o acaso explicaria.

Por que os dois quadros se confundem?

Na fase de Mania ou Hipomania, (período de humor elevado ou irritável, com mais energia), a pessoa fica distraída, fala rápido, age por Impulso e não para quieta.

Na Fase Depressiva, a concentração cai e a memória falha.

O TDAH produz queixas muito parecidas, o que leva muitas pessoas a receberem um diagnóstico e a perderem o outro por anos.

O que pode diferenciar: constância versus episódios

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento. Os sintomas começam na infância, em geral antes dos 12 anos, e estão presentes de forma relativamente contínua, em diferentes ambientes.

O Transtorno Bipolar é episódico.

Há períodos claros, com início e fim, em que a pessoa muda em relação ao seu jeito habitual: uma hipomania dura pelo menos quatro dias e uma Mania pelo menos sete, segundo o DSM-5.

Na prática clínica, a pergunta que mais ajuda é se a pessoa era assim a vida inteira ou se existem fases.

Quem tem apenas TDAH costuma descrever o mesmo funcionamento desatento há décadas, claro, podendo tem oscilações, momentos um pouco melhores, momentos um pouco piores.

Quem tem bipolaridade costuma lembrar de blocos de tempo distintos.

Um sinal que costuma passar despercebido

Muitas pessoas acreditam que dormir pouco e sentir muita energia fazem parte do TDAH.

Entretanto, a redução da necessidade de sono sem sensação de cansaço, por vários dias seguidos, é um dos marcadores mais úteis de hipomania ou mania.

No TDAH, a pessoa que dorme pouco costuma acordar exausta.

Na Hipomania, ela dorme quatro horas e se sente disposta.

Outro ponto pouco conhecido é que a instabilidade emocional do TDAH tende a durar horas e a ser reativa a situações, enquanto a oscilação do Transtorno Bipolardura dias ou semanas e muitas vezes surge sem um motivo claro.

Diagnóstico de TDAH e Bipolaridade

Não existe exame de sangue ou de imagem que confirme nenhum dos dois.

O diagnóstico é clínico e depende de uma história de vida bem contada: como era a infância, o desempenho escolar, as fases de humor, o uso de álcool e outras substâncias, o histórico familiar.

Quando possível, a conversa com um familiar que conheça a pessoa há muito tempo ajuda a reconstruir a linha do tempo. Escalas de rastreio podem apoiar a avaliação, mas não decidem sozinhas.

Também é preciso descartar outras causas de desatenção e agitação, como problemas de tireoide, apneia do sono, efeitos de medicações e uso de substâncias.

Na prática clínica, é comum que o diagnóstico de TDAH só possa ser fechado com segurança depois que o humor está estável, porque a depressão e a hipomania contaminam a avaliação da atenção.

Tratamento quando TDAH e Transtorno Bipolar coexistem

O princípio geral é tratar primeiro o Transtorno Bipolar. Estabilizadores de humor e alguns antipsicóticos, escolhidos conforme o perfil de cada pessoa, formam a base.

Só depois de uma estabilidade razoável o TDAH costuma ser abordado.

O ponto de maior cuidado são os estimulantes, como o metilfenidato. Um grande estudo sueco de registros mostrou que o uso de metilfenidato sem estabilizador de humor se associou a maior risco de Mania, ou Virada Maníaca, enquanto o uso em combinação com um estabilizador de humor se associou a menor risco.

Isso reforça uma conduta consolidada: o estimulante isolado, sem proteção do humor, deve ser evitado em quem tem bipolaridade.

Existem alternativas não estimulantes, e a decisão deve ser individualizada, com reavaliação frequente.

Estratégias não medicamentosas também contribuem, como regularidade do horário de sono, rotina estruturada, psicoeducação e terapia cognitivo-comportamental voltada para organização e planejamento.

Não faça uso de qualquer medicação sem a avaliação e prescrição Médica.

Conclusão

Transtorno Bipolar e TDAH podem ser parecidos na superfície e muito diferentes na essência.

Olhar a história inteira, e não apenas o momento da consulta, é o que permite separar um do outro ou reconhecer que ambos estão presentes.

O diagnóstico preciso e o tratamento na ordem certa costumam reduzir recaídas, evitar virada maníaca e melhorar a qualidade de vida.

 

*O conteúdo deste site tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual.

 

Sobre o autor: Dr. Vitor Cavenaghi é médico psiquiatra, especialista em Psiquiatria pela USP, com atuação em Depressão e Transtorno Bipolar. É doutorando em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e membro da American Psychiatric Association (APA). Atende em consultório privado em São Paulo.

 

Referências

  • Yatham et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders Guidelines for the Management of Bipolar Disorder. Bipolar Disorders. 2023.
  • Schiweck C, Arteaga-Henriquez G, Aichholzer M, et al. Comorbidity of ADHD and adult bipolar disorder: a systematic review and meta-analysis. Neurosci Biobehav Rev. 2021;124:100-123. DOI: 10.1016/j.neubiorev.2021.01.017
  • Viktorin A, Rydén E, Thase ME, et al. The risk of treatment-emergent mania with methylphenidate in bipolar disorder. Am J Psychiatry. 2017;174(4):341-348. DOI: 10.1176/appi.ajp.2016.16040467
  • Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97-170. DOI: 10.1111/bdi.12609

 

Perguntas Frequentes - FAQ

Quem tem TDAH pode ter Transtorno Bipolar?

Pode.

Cerca de 1 em cada 13 adultos com TDAH também apresenta transtorno bipolar, proporção maior do que na população geral.

Por isso, quando uma pessoa com TDAH relata fases de pouco sono com muita energia, gastos fora do habitual ou depressões profundas, vale investigar bipolaridade antes de ajustar qualquer medicação estimulante.

Como diferenciar TDAH de Transtorno Bipolar?

O TDAH começa na infância e se mantém de forma relativamente constante, com desatenção e impulsividade em vários contextos.

O Transtorno Bipolar aparece em episódios, com início e fim, e traz mudanças claras em relação ao jeito habitual da pessoa, como diminuição da necessidade de sono sem cansaço, euforia ou irritabilidade intensa. A história de vida e a linha do tempo são o principal instrumento de diferenciação.

Essa diferenciação deve ser feita a partir de avaliação médica.

Pode tomar Ritalina (metilfenidato) com transtorno bipolar?

Em geral, o metilfenidato não deve ser usado sozinho em quem tem bipolaridade, pelo risco de induzir mania.

Em pessoas com humor estabilizado por estabilizador de humor, e com acompanhamento próximo, o uso pode ser considerado pelo psiquiatra.

A decisão é individual e nunca deve ser feita por conta própria.

Não faça uso de qualquer medicação sem a avaliação e prescrição Médica.

O TDAH pode ser confundido com Mania ou Hipomania?

Sim.

Fala rápida, inquietação, distração e impulsividade aparecem nos dois quadros.

A diferença é que, na Hipomania ou na Mania, há um período delimitado de mudança do humor e da energia, geralmente com menos necessidade de sono. No TDAH, esse funcionamento é antigo e contínuo.

Dá para tratar TDAH e transtorno bipolar ao mesmo tempo?

Sim, mas com ordem e cautela.

Em geral, dentro do contexto do Transtorno Bipolar, estabiliza-se o humor primeiro e depois se trata o TDAH, com acompanhamento frequente. Existem opções medicamentosas e não medicamentosas, e a escolha depende de episódios anteriores, risco de virada maníaca e resposta prévia a tratamentos.

 

Quando procurar ajuda profissional

Se você se identificou com alguns dos sintomas ou dificuldades descritos neste texto, pode ser útil conversar com um profissional de saúde mental.

A avaliação psiquiátrica permite compreender melhor o quadro e discutir possíveis estratégias de tratamento.

Dr. Vitor Cavenaghi atende pacientes em consultório privado em São Paulo.

👉 Informações sobre agendamento podem ser encontradas aqui.

 

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