Participei do congresso New Frontiers in Attention-Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD) 2026, agora em setembro.
Para quem trabalha com depressão e Transtorno Bipolar, como eu, acompanhar o que se discute em TDAH não é um desvio de assunto.
Transtornos de Humor e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) se encontram no consultório com mais frequência do que se imagina.
Por que um psiquiatra de humor estuda TDAH
O TDAH e os transtornos do humor compartilham sintomas, como desatenção, inquietação, impulsividade e irritabilidade, e muitas vezes coexistem.
Uma metanálise de 2021 estimou que cerca de 17% dos adultos com transtorno bipolar têm também TDAH, e que cerca de 8% dos adultos com TDAH têm Transtorno Bipolar.
Na depressão, a desatenção e a lentidão mental também podem imitar ou mascarar o TDAH.
Na prática clínica, isso significa que o adulto que chega com "dificuldade de concentração" pode ter TDAH, uma depressão, uma hipomania, ou uma combinação.
Perguntar apenas pelo sintoma do dia não resolve. É preciso olhar a história inteira.
Três ideias que reforço depois do congresso
1. O tempo é o melhor critério diferencial
O TDAH começa na infância e é relativamente constante
Os transtornos do humor são episódicos. Reconstruir a linha do tempo continua sendo o recurso diagnóstico mais útil.
2. A ordem do tratamento importa
Quando há bipolaridade, estabilizar o humor, com o uso de estabilizador de humor, costuma vir antes de tratar a atenção, e o uso de estimulantes sem proteção do humor merece cautela.
3. O TDAH não é estático
Assim como os transtornos de humor podem apresentar flutuações ao longo da vida, o TDAH também.
Portanto, um seguimento longitudinal se faz necessário para acompanhar as mudanças que o TDAH pode apresentar ao longo do tempo, e eventuais ajustes de tratamentos que possam ser imperativos.
O que isso muda para quem busca atendimento
A principal mensagem é de cautela e de curiosidade clínica.
Nem toda desatenção é TDAH, e nem todo TDAH está sozinho. Um diagnóstico bem feito evita tratar como TDAH o que é bipolaridade, e também evita deixar um TDAH real sem tratamento por medo de medicar.
Continuo estudando o tema e pretendo trazer, nos próximos textos do blog, o que for sendo consolidado pela literatura sobre TDAH e transtornos do humor.
*O conteúdo deste site tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual.
Sobre o autor: Dr. Vitor Cavenaghi é médico psiquiatra, especialista em Psiquiatria pela USP, com atuação em Depressão e Transtorno Bipolar. É doutorando em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e membro da American Psychiatric Association (APA). Atende em consultório privado em São Paulo.
Referências
- Schiweck C, Arteaga-Henriquez G, Aichholzer M, et al. Comorbidity of ADHD and adult bipolar disorder: a systematic review and meta-analysis. Neurosci Biobehav Rev. 2021;124:100-123. DOI: 10.1016/j.neubiorev.2021.01.017
- Yatham et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders Guidelines for the Management of Bipolar Disorder. Bipolar Disorders. 2023.
Quando procurar ajuda profissional
Se você se identificou com alguns dos sintomas ou dificuldades descritos neste texto, pode ser útil conversar com um profissional de saúde mental.
A avaliação psiquiátrica permite compreender melhor o quadro e discutir possíveis estratégias de tratamento.
Dr. Vitor Cavenaghi atende pacientes em consultório privado em São Paulo.
👉 Informações sobre agendamento podem ser encontradas aqui.
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