Quem convive com Transtorno Bipolar e passa mais tempo deprimido do que eufórico costuma fazer a mesma pergunta ao psiquiatra: existe algum remédio que ajude na Depressão Bipolar sem provocar uma virada Maníaca.
A Lamotrigina é uma das respostas mais frequentes, e também uma das que mais geram dúvidas, principalmente sobre dose, tempo de efeito e o risco de reação na pele.
Muita gente chega ao consultório com a receita na mão, sem saber por que o aumento da dose é tão lento, ou procurando a medicação por outro nome, como o da caixa que viu na farmácia.
Este texto reúne o que costuma ser explicado em consulta: para que ela serve, como a dose é aumentada, quais são os nomes comerciais e quais sinais exigem atenção.
Para que serve a lamotrigina no Transtorno Bipolar?
A lamotrigina é uma medicação anticonvulsivante usada principalmente para em episódios de depressão no Transtorno Bipolar, tipos I e II.
Ela atua melhor sobre a fase depressiva do que sobre a Mania.
Em geral não causa ganho de peso importante nem sedação, mas exige aumento lento da dose para reduzir o risco de reação de pele.
O que a evidência mostra
Um estudo clássico de 18 meses, com pessoas com Transtorno Bipolar tipo I recém-saídas de um episódio de mania ou Hipomania, comparou lamotrigina, lítio e placebo.
A lamotrigina retardou o aparecimento de novos episódios depressivos, enquanto o lítio mostrou mais efeito sobre os episódios de mania. As diretrizes internacionais, como a CANMAT, incluem a lamotrigina entre as opções para a manutenção e para a Depressão Bipolar.
Aqui está um ponto que muitos pacientes desconhecem: a lamotrigina é um tem um efeito "assimétrico". Ela protege melhor contra a depressão do que contra a elevação do humor.
Por isso, quem espera que ela acalme uma fase de agitação ou de hipomania pode se frustrar, na verdade ela até pode ter um efeito contrário.
Na prática clínica, ela costuma ser escolhida para quem tem como principal problema as depressões recorrentes, e muitas vezes é combinada com outro Estabilizador de Humor.
Dose da lamotrigina: por que o aumento é tão lento
A lamotrigina não é iniciada na dose final. A dose sobe aos poucos, ao longo de semanas, porque o aumento rápido se associa a maior risco de reações graves na pele.
A bula brasileira descreve o esquema para epilepsia, e o esquema para Transtorno Bipolar segue a bula internacional e a decisão do psiquiatra.
De forma geral, o esquema habitual é o início com 25mg ao dia, com aumento gradual ao longo dos dias, a depender de experiência do psiquiatra, tolerabilidade do paciente e efeito terapêutico.
As doses de manutenção mais usadas ficam entre 100 e 200mg por dia, divididos em 2 tomadas.
A dose e o ritmo do aumento são sempre definidos pelo médico, e nunca devem ser alterados por conta própria.
Na prática clínica, muitas pessoas abandonam o tratamento nas primeiras semanas por acharem que "não funciona", sem saber que a dose eficaz só é atingida depois de cerca de um mês e meio.
Não faça uso de qualquer medicação sem a avaliação e prescrição Médica.
Nomes comerciais e apresentações
No Brasil, a lamotrigina é vendida como medicamento genérico e com nomes comerciais, entre eles Lamictal, Lamitor e Neural. A substância é a mesma, e o que muda é o fabricante.
Os comprimidos de Lamotrigina mais comuns têm 25 mg, 50 mg e 100 mg, o que permite montar o esquema de aumento gradual. Este texto cita apenas 3 nomes apenas para facilitar a identificação do medicamento, e não indica preferência por marca.
Efeitos colaterais e sinais de alerta
Os efeitos mais comuns são dor de cabeça, tontura, náusea e alterações do sono, geralmente leves. O ponto de maior atenção é a erupção na pele. Uma vermelhidão na pele leve (exantema) ocorre em parte das pessoas, em geral nas primeiras semanas, mas raramente evolui para quadros graves.
Qualquer mancha nova na pele, principalmente com febre, feridas na boca, olhos vermelhos ou bolhas, deve ser avaliada de imediato, e o uso do medicamento deve ser interrompido até a orientação médica. Embora isso seja muito raro, é uma emergência que precisa ser avaliada.
Alguns cuidados também importam. O divalproato de sódio, um Estabilizadores de Humor, aumenta o nível de lamotrigina e exige doses menores.
Contraceptivos com estrogênio podem reduzir o efeito da Lamotrina, e por isso quem inicia ou interrompe o anticoncepcional precisa de reavaliação da dose.
Se a medicação for esquecida por vários dias seguidos, o reinício costuma exigir nova titulação, de acordo com orientação médica.
Não faça uso de qualquer medicação sem a avaliação e prescrição Médica.
Conclusão
A lamotrigina é uma ferramenta valiosa para quem tem transtorno bipolar com depressões frequentes.
Seu benefício depende de paciência com o aumento gradual da dose e de acompanhamento atento nas primeiras semanas.
Um tratamento bem escolhido e bem conduzido costuma reduzir recaídas e melhorar a estabilidade do humor ao longo do tempo.
*O conteúdo deste site tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual.
Sobre o autor: Dr. Vitor Cavenaghi é médico psiquiatra, especialista em Psiquiatria pela USP, com atuação em Depressão e Transtorno Bipolar. É doutorando em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e membro da American Psychiatric Association (APA). Atende em consultório privado em São Paulo.
Referências
- Yatham et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders Guidelines for the Management of Bipolar Disorder. Bipolar Disorders. 2023.
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Bowden CL, Calabrese JR, Sachs G, et al. A placebo-controlled 18-month trial of lamotrigine and lithium maintenance treatment in recently manic or hypomanic patients with bipolar I disorder. Arch Gen Psychiatry. 2003;60(4):392-400. DOI: 10.1001/archpsyc.60.4.392
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Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97-170. DOI: 10.1111/bdi.12609
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Calabrese JR, Bowden CL, Sachs GS, et al. A double-blind placebo-controlled study of lamotrigine monotherapy in outpatients with bipolar I depression. J Clin Psychiatry. 1999;60(2):79-88.
Perguntas frequentes
Para que serve a lamotrigina no transtorno bipolar?
A lamotrigina é usada principalmente no tratamento da depressão bipolar e também para ajudar a prevenir novos episódios de depressão em pessoas com transtorno bipolar, tipos I e II.
Ela atua melhor sobre as quedas do humor do que sobre a mania. Por isso, é frequentemente associada a outro estabilizador de humor. Não é indicada para tratar sozinha um episódio agudo de mania.
Qual a dose de lamotrigina no transtorno bipolar?
A dose da lamotrigina é aumentada gradualmente ao longo de cerca de semanas. A dose de manutenção mais usada é de 100 a 200 mg por dia, divididas em 2 tomadas.
Quem usa carbamazepina ou outros indutores enzimáticos pode precisar de doses maiores.
Os comprimidos têm 25 mg, 50 mg e 100 mg.
A dose é individual e sempre definida pelo psiquiatra, que também ajusta o ritmo do aumento.
Não faça uso de qualquer medicação sem a avaliação e prescrição Médica.
Quais são os nomes comerciais da lamotrigina?
No Brasil, a lamotrigina é encontrada como genérico e com nomes comerciais, como Lamictal, Lamitor e Neural, entre outros.
A substância é a mesma, e as apresentações mais comuns são de 25 mg, 50 mg e 100 mg.
Ao trocar de marca ou para o genérico, converse com o médico, pois pequenas diferenças entre fabricantes podem exigir acompanhamento.
Os nomes são citados aqui apenas para identificação, sem preferência.
Quanto tempo a Lamotrigina demora para fazer efeito?
Como a dose sobe devagar, o efeito pleno costuma aparecer depois de semanas, em geral quando a dose de manutenção é atingida, por volta de seis semanas ou mais.
Por isso, ela não é indicada para alívio rápido de uma crise.
Muitas pessoas sentem melhora gradual no humor ao longo dos meses.
Interromper o uso nas primeiras semanas, achando que não funciona, é um erro comum.
A Lamotrigina engorda ou dá sono?
Em geral, a lamotrigina tem pouco efeito sobre o peso e não costuma causar sedação ou sonolência.
Alguns pacientes relatam dor de cabeça, tontura, náusea ou alterações do sono, principalmente no início. A resposta varia de pessoa para pessoa.
Qualquer efeito incômodo deve ser comunicado ao médico, sem interromper o tratamento por conta própria.
O que fazer se esquecer de tomar a Lamotrigina por vários dias?
Se ficarem vários dias seguidos sem o medicamento, não retome a dose anterior por conta própria.
Como a lamotrigina exige aumento gradual para reduzir o risco de reação grave na pele, o reinício costuma precisar de nova titulação, a partir de doses menores.
Entre em contato com o psiquiatra para receber a orientação correta antes de voltar a tomar.
Quando procurar ajuda profissional
Se você se identificou com alguns dos sintomas ou dificuldades descritos neste texto, pode ser útil conversar com um profissional de saúde mental.
A avaliação psiquiátrica permite compreender melhor o quadro e discutir possíveis estratégias de tratamento.
Dr. Vitor Cavenaghi atende pacientes em consultório privado em São Paulo.
👉 Informações sobre agendamento podem ser encontradas aqui.
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